Coronel do Corpo de Bombeiros é denunciado por assédio sexual à Justiça Militar no RJ; ele nega
03/07/2026
(Foto: Reprodução) Quartel Central do Corpo de Bombeiros, no Centro do Rio
Divulgação
O coronel do Corpo de Bombeiros Lauro César Botto Maia foi denunciado pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública, do Ministério Público do Rio (Gaesp/MPRJ), pelo crime de assédio sexual. A denúncia foi recebida pela Justiça Militar na quarta-feira (1º). Ele nega as acusações.
Segundo o MPRJ, os fatos ocorreram entre o fim de 2024 e julho de 2025. Nesse período, o oficial teria enviado, por meio de uma rede social, mensagens com conteúdo considerado inadequado a uma subordinada, com o objetivo de obter vantagem ou favorecimento sexual.
Botto Maia chegou a ficar preso por dois dias na semana passada, mas obteve um habeas corpus que revogou a prisão.
Na denúncia, o MP afirma que reuniu mensagens, reações a publicações da vítima e referências à posição de comando ocupada pelo coronel como elementos que embasam a acusação.
"Ao longo do período mencionado, algumas das mensagens do denunciado passaram a ser feitas diretamente, inclusive tratando da vida pessoal da vítima, de forma insistente, inconveniente e constrangedora, sempre com sentidos ambíguos e, em pelo menos uma oportunidade, aludindo diretamente à sua condição de superior hierárquico", diz um trecho da denúncia.
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Ainda segundo o documento, o comportamento do denunciado teria se tornado cada vez mais insistente ao longo dos meses.
A pedido do MPRJ, a Justiça Militar determinou medidas cautelares contra o coronel, como:
a suspensão do porte de arma de fogo;
a proibição de manter contato com a vítima e as testemunhas;
a proibição de ingressar no quartel do comando-geral do Corpo de Bombeiros;
e a proibição de fazer referências públicas às pessoas envolvidas no caso.
Denúncia de oficiais e praças
O coronel do Corpo de Bombeiros Lauro César Botto Maia
Reprodução/Redes sociais
A apuração foi aberta após uma série de relatos apresentados por oficiais e praças, que denunciaram a conduta do militar.
Os episódios teriam ocorrido ao longo dos meses de setembro de 2024 e outubro de 2025, período em que o oficial, de 46 anos, ocupava o cargo de subsecretário de Defesa Civil. O militar é casado e tem filhos.
No dia 28 de outubro de 2025, após diversos relatos de vítimas, ele foi afastado do cargo. No dia 30 de outubro, o Governo do Rio exonerou o coronel da função.
Nas últimas semanas, diversas pessoas, entre vítimas e testemunhas, prestaram depoimento no MP.
Outras possíveis vítimas
O g1 apurou que ourtas mulheres se dizem vítimas do militar, mas preferiram não levar o caso adiante por receio de consequências e para evitar exposição.
Em quatro depoimentos aos quais a reportagem teve acesso, os relatos citam:
Aproximação pelas redes sociais: ele adicionava subordinadas em sua rede social após apresentações da orquestra do Corpo de Bombeiros.
Mensagens inconvenientes: inicialmente com elogios, a conversa evoluía para comentários sugestivos, como: "Pena que não convida esse reles comandante para essas apresentações”.
Pressão velada: Em alguns casos, oferecia vantagens como promoções e transferências para unidades mais bem localizadas, caso aceitassem suas investidas. Quem recusava, segundo relatos, era punida com transferências para postos menos desejados.
Uso da hierarquia: As vítimas relataram sentir medo e constrangimento diante da posição do coronel, que segundo elas chegou a insinuar que poderia abrir processos administrativos disciplinares (PAD) contra quem não se aproximasse.
Tentativa de blindagem: Após assumir o cargo de subsecretário, o oficial teria trocado os responsáveis pela Sala Lilás — setor da corporação que acolhe denúncias de violência sofrida por militares — para evitar ser denunciado.
Denúncias e investigação
A investigação interna teria começado depois de uma pressão interna feita por mulheres vítimas, apresentando conversas consideradas incompatíveis com a conduta esperada de um oficial.
Os depoimentos revelam que o comportamento do coronel era sistemático e atingia várias integrantes do Grupamento de Bombeiros Músicos (GBMUS). As vítimas relataram que, diante da insistência, criaram um pacto para silenciá-lo ou bloqueá-lo nas redes sociais, como forma de autoproteção.
O g1 acompanha o caso desde 2025. Em outubro, o Corpo de Bombeiros confirmou que a instituição tinha ciência dos fatos e que “foram realizadas oitivas das pessoas envolvidas em relatos que chegaram ao conhecimento do comando-geral no dia 27 de outubro de 2025, data em que também foram adotadas as primeiras medidas de apuração.”
Entretanto, o órgão não informou que o oficial havia sido exonerado por conta das acusações (veja a nota na íntegra abaixo).
Ainda de acordo com a corporação, "a solicitação de exoneração foi uma decisão administrativa" e que "medidas disciplinares, se cabíveis, somente poderão ser averiguadas após o encerramento do processo e a devida observância ao direito constitucional à ampla defesa e ao contraditório".
O Corpo de Bombeiros finalizou dizendo que "reafirma seu compromisso com a transparência, a ética e o respeito às normas disciplinares e legais que regem a administração pública e a conduta de seus integrantes."
A instituição disse ainda que vítimas as vítimas foram assistidas pela Sala Lilás da corporação.
Assim que o caso foi encaminhado ao MPRJ, o g1 voltou a procurar o Corpo de Bombeiros. Em nota, a corporação informou que a situação foi investigada administrativamente por meio de uma sindicância conduzida pela Corregedoria Interna.
Ao final da apuração, o material foi enviado à Auditoria da Justiça Militar e ao MPRJ.
No âmbito administrativo, a sindicância indicou, em tese, a ocorrência de transgressão disciplinar por violação de princípios éticos e morais.
Com base nisso, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), cuja defesa já foi apresentada e segue em análise.
O Corpo de Bombeiros destacou que todo o procedimento respeita o devido processo legal e o caráter sigiloso, além de reafirmar que não tolera práticas de assédio, tratando todas as denúncias com rigor técnico e responsabilidade, em defesa da ética, da disciplina e de um ambiente institucional seguro.
O coronel nega acusações de assédio, questiona a apuração e diz que a punição é injusta.
O que diz o Corpo de Bombeiros
“A solicitação de exoneração do coronel foi uma decisão de caráter administrativo. No âmbito interno, o comando-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) tomou conhecimento dos relatos no dia 27 de outubro de 2025, data em que foram imediatamente adotadas as primeiras medidas de apuração, incluindo a oitiva das pessoas envolvidas. O procedimento segue em andamento, conforme os trâmites previstos nas normas da corporação.
Desde o início das apurações foram colocados à disposição das militares o atendimento da Sala Lilás.
Após a publicação do ato de exoneração, o referido oficial entrou em gozo de férias regulamentares, devidamente autorizadas.
O CBMERJ reafirma seu compromisso com a transparência, a ética e o cumprimento rigoroso das normas disciplinares e legais que regem a administração pública e a conduta de seus integrantes.”
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